Serra d’Arga vai ter observatório internacional

Um investimento de cerca de 200 mil euros vai permitir criar, até final de junho, um Observatório Internacional da Serra d’Arga, em São Lourenço da Montaria, no concelho de Viana do Castelo, informou hoje a Câmara.

Em comunicado, o município especificou que a “construção da nova valência começa ainda este mês, com um prazo de execução de seis meses, devendo estar concluída até final de junho”.

Trata-se de “um espaço de investigação científica, com disponibilidade de residência para investigadores”.

O “projeto para a Qualificação das Experiências de Turismo de Aldeia no Minho – Observatório Internacional da Serra d’Arga surge no âmbito do Programa de Valorização Económica de Recursos Endógenos (PROVERE) – Minho INovação, candidatado ao Norte 2020”.

Segundo a Câmara de Viana do Castelo, “o edifício onde ficará instalado o observatório tem uma localização privilegiada em relação à montanha, colocando-se no sopé desta, junto à entrada da Serra d’Arga, mas simultaneamente perto do centro cívico de São Lourenço da Montaria”.

“Será um edifício retangular de três pisos, entre espaços de trabalho/reuniões, laboratório e alojamento, incluindo áreas de apoio”, acrescenta.

De acordo com a autarquia, “a Serra d’Arga é detentora de recursos naturais ímpares, de uma paisagem singular e com um património material e imaterial de ordem natural, ambiental, histórico e cultural de elevado valor”.

É, por isso, considerada de “grande relevância” a implementação do Observatório Internacional da Serra d’Arga.

Aquele observatório “irá permitir a criação de instalações que permitam acolher investigadores para a realização de diversos estudos nas mais vastas áreas de intervenção (geologia, fauna, flora), de modo a permitir a compreensão da identidade da Serra d’Arga.

O novo equipamento permitirá ainda “explorar e aumentar o conhecimento do garrano, enquanto raça equídea autóctone dos sistemas montanhosos do Alto Minho que habita na Serra d’Arga, da biodiversidade, dos ecossistemas, do património geológico, da paisagem, designadamente os seus valores faunísticos e geológicos, a avaliação e valorização dos seus serviços de ecossistemas e da infraestrutura verde que esta constitui”.

O projeto “pretende ainda a exploração das funções que esta paisagem desempenha no contexto do desenvolvimento do turismo de natureza, de aventura, cultural e religioso e, ao mesmo tempo, potencia as condições de desenvolvimento de oportunidades para a valorização do espaço, das comunidades e da diversificação das atividades na gestão da paisagem da Serra d’Arga”.

A serra d’Arga abrange uma área de 10 mil hectares, nos concelhos de Caminha, Vila Nova de Cerveira, Paredes de Coura, Viana do Castelo e Ponte de Lima, dos quais 4.280 hectares se encontram classificados como Sítio de Importância Comunitária.

Aqueles cinco municípios têm em curso o projeto “Da Serra d’Arga à Foz do Âncora”, liderado pela Comunidade Intermunicipal (CIM) do Alto Minho, que visa a classificação da Serra d’Arga como Área de Paisagem Protegida de Interesse Municipal.

Fonte: O MINHO

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Viana do Castelo é a “primeira no país” com programa para avaliar ar interior de 53 escolas

A Câmara explica que este projeto vai avaliar os riscos existentes nas escolas através de sensores para não comprometer a saúde e o conforto dos alunos, professores e funcionários.

Viana do Castelo é o “primeiro município do país” a desenvolver um programa de monitorização da qualidade do ar interior dos 53 edifícios do parque escolar do concelho, num investimento de 18 mil euros, anunciou esta terça-feira a câmara.

“Viana do Castelo é o primeiro município do país com uma estratégia para a monitorização das radiações ionizantes, sob a forma de programa, que está a ser concretizado e com resposta clara para este assunto”, afirmou esta terça-feira o vereador do Ambiente e Biodiversidade, Ciência, Inovação e Conhecimento, Ricardo Carvalhido. O responsável, que falava durante a sessão de encerramento do projeto RnMonitor “Radão em Portugal: situação atual e perspetivas futuras” explicou que aquele programa “começou a ser implementado esta semana para avaliar a qualidade biotérmica e radiológica” do ar nas 53 escolas do concelho, sendo que, “no próximo mês, será iniciada a avaliação à qualidade microbiológica”.

“Vamos avaliar o ar de cerca de um terço das salas de aulas das nossas escolas. Dentro de dois meses, esperamos ter o primeiro perfil da qualidade do ar das nossas escolas. Nos edifícios que apresentarem dados fora dos valores considerados normais, será implementado um estudo mais pormenorizado com uma duração de, no mínimo, três meses”, especificou.

Ricardo Carvalhido adiantou que “a monitorização do gás radão e dos parâmetros de humidade, temperatura e dióxido de carbono estão a ser aferidos por sensores instalados nas 53 escolas do concelho, equipamentos que comunicam através de uma rede partilhada entre a câmara e pelo Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC), sendo possível receber, em tempo real, os dados de cada estabelecimento”. “Estes dados estão a ser monitorizados na plataforma da Rede Municipal de Monitorização de Parâmetros Ambientais e de Proteção Civil, para, posteriormente, serem validados e analisados pelos parceiros do programa”, indicou.

O programa de monitorização da qualidade do ar interior de edifícios municipais tem como parceiros o IPVC e a Unidade Local de Saúde do Alto Minho (ULSAM), que participarão “na elaboração de um manual de boas práticas para a qualidade do ar interior de cada edifício escolar”. Aquele documento incluirá medidas que “poderão passar pela determinação de uma frequência e duração de arejamento, ou, em casos excecionais, a instalação de mecanismos de ventilação forçada do espaço”.

O vereador da câmara da capital do Alto Minho explicou que o programa teve início no parque escolar por ser “reconhecido, por um lado, que o conforto biotérmico dos alunos nas salas de aula, (aferido pelos dados de temperatura e humidade relativa) é um fator determinante no sucesso educativo e também porque a presença de agentes radiológicos (como é exemplo o gás radão, principalmente na região Norte e Centro de Portugal) e biológicos (como vírus, fungos e bactérias) podem comprometer de forma séria, a saúde dos alunos e dos profissionais de educação”. A implementação daquele programa municipal resulta “da transferência de competências em matéria de educação, da administração central para a administração local”.

Ricardo Carvalhido adiantou que, em abril, no decurso do programa municipal, a autarquia lançará, no âmbito do Dia Nacional do Ar, a iniciativa “O Radão por Casa”. O responsável explicou tratar-se de “um programa doméstico que disponibilizará aos munícipes uma sonda que lhes permitirá conhecer, durante uma semana, os valores de radão e os parâmetros de conforto bioclimático da sua habituação”. Posteriormente, “os munícipes receberão uma avaliação diagnóstica com orientações para a mitigação dos parâmetros nos casos em que estes ultrapassem o valor legal de referência”. “No caso dos moradores do centro histórico, estará disponível a sonda que permitirá o acesso em tempo real aos valores medidos, através da plataforma da rede municipal de monitorização de parâmetros ambientais e proteção civil”, referiu.

O projeto de investigação intitulado “RnMonitor: Infraestrutura de Monitorização Online e Estratégias de Mitigação Ativa do Gás Radão no Ar Interior em Edifícios Públicos da Região Norte de Portugal” foi realizado entre 2016 e 2019. A investigação foi conduzida pelos docentes António Curado e Sérgio Lopes do IPVC e incidiu sobre 30 edifícios públicos selecionados pelas câmaras de Viana do Castelo e Barcelos.

Ver folheto para saber mais…

Fonte: Observador

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Viana do Castelo recebeu Diploma da Bandeira Verde Eco XXI 2020

A Associação Bandeira Azul da Europa atribuiu a Viana do Castelo o Diploma Bandeira Verde Eco XXI para 2020, reconhecendo assim a meritória participação e empenho do Município no programa. Viana do Castelo pode assim hastear a bandeira, que reconhece o bom desempenho ambiental do município em prol do desenvolvimento sustentável.

Trata-se de um programa implementado desde 2005 – ano zero – pela Associação Bandeira Azul da Europa, que visa reconhecer as melhores práticas de sustentabilidade ao nível municipal, através da avaliação, por um conjunto de peritos de 21 indicadores e 71 subindicadores nas áreas ambiental, social e económica.

Em 2020 o ECOXXI incluiu, pela primeira vez, indicadores específicos no âmbito das Alterações Climáticas e Saúde e Bem-estar.

São ainda considerados outros temas como: A Educação para a Sustentabilidade; Sustentabilidade em Zonas Balneares; Cidadania, Participação e Governança; Transparência, Digitalização e Conectividade: Emprego; Cooperação com a Sociedade Civil; Certificação de Sistemas de Gestão; Ordenamento do Território; Conservação da Natureza ; Gestão e Conservação da Floresta; Qualidade do Ar e Ambiente Sonoro; Água Segura e Qualidade dos Serviços de Águas Prestados aos Utilizadores; Produção e Recolha Seletiva de Resíduos Urbanos; Valorização do Papel da Energia na Gestão Municipal; Mobilidade Sustentável; Agricultura e Desenvolvimento Rural Sustentável; Turismo Sustentável.

Na edição de 2020, foram atribuídas 56 Bandeiras Verdes ECOXXI (90% dos municípios participantes), ou seja, obtiveram um índice igual ou superior a 50%, sendo que apenas 6 (10%) não atingiram os objetivos mínimos estabelecidos.

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“É um piscar de olhos, não estamos aqui há tempo nenhum”. Uma viagem ao princípio da Terra a partir de Viana do Castelo

foto: Pedro Marques | MadreMedia

 

O roteiro do Geoparque Litoral de Viana do Castelo dá-nos um pouco de várias coisas: aventura, ciência, história e, com as devidas paragens, a boa mesa e acolhimento minhotos. Das Dunas Trepadoras do Faro de Anha às Pedras Ruivas são poucos quilómetros mas contam-nos milhões de anos da história da Terra.

 

Porque é que viemos até aqui? Onde é que nós estamos?

Esta foi a pergunta de partida para um roteiro que nos levou a conhecer 3 dos 13 monumentos naturais que integraram o Geoparque Litoral de Viana do Castelo cujos painéis interpretativos foram apresentados publicamente a 6 de novembro. Até ao final do ano serão lançadas a APP e o sítio da internet do geoparque, e até ao final do primeiro trimestre de 2021, as 3 portas: Atlântico, Neiva e Argas.

Percorremos três dos percursos com um guia pouco convencional. Ricardo Carvalhido é vereador da Câmara Municipal de Viana do Castelo, licenciado em Biologia e Geologia, e doutorado em Geologia, e presidente do Conselho Científico do Geoparque Litoral de Viana do Castelo. E, não será arriscado dizer, alguém que fala de plantas, areias e formações rochosas com uma paixão que contagia quem é leigo nestas matérias.

Voltemos à pergunta e ao ponto de partida: onde é que nós estamos?

Começamos o nosso percurso por um lugar emblemático de Viana do Castelo, mas que não seria o que estaríamos à espera quando o propósito é conhecer o roteiro dos monumentos naturais. Estamos na encosta no cimo da qual se ergue o Santuário de Santa Luzia, num dos enclaves da estrada. Aos nossos pés, está Viana, a cidade, à nossa frente uma paisagem verde no azul do céu que dá pelo nome de Monte Galeão.

Uma praia no cimo de um monte

“Estamos virados para o estuário [do rio Lima] e para a nossa costa”, diz-nos Ricardo Carvalhido. “Gosto sempre de vir aqui quando venho passear ou quando trago algum grupo, porque permite ter uma ideia das principais formas de relevo. Muitas vezes andamos no reboliço do dia-a-dia e não nos apercebemos que o relevo está estruturado em grandes e em pequenas formas”.

As chamadas geoformas de pequena escala são, na realidade, as formas grandes, como por exemplo, as montanhas. Como é fácil deduzir, o contrassenso da expressão também vale no seu inverso: as geoformas de grande escala só vemos ao pormenor. Nas palavras do nosso guia: “Existem fenómenos, materiais geológicos e clima diferentes, e também o tempo cronológico, fatores que imprimem uma forma, um aspecto uma forma, um aspeto, um desenho, à nossa paisagem atual, que vai evoluir e não ficará assim para sempre”.

Continuando.

“Este monte que está aqui em frente é o Monte Galeão. Se repararem, tem um patamar que se vê bastante bem aos 100 metros, e depois tem um topo, que está relativamente plano também, aos 160m. Se desviarem o olhar para montante vê-se um relevo que também é aplanado no seu topo e que é o Monte de Roques, o topo anda à volta dos 279 metros acima do nível do mar. Depois, progredindo para o interior da margem esquerda do Rio Lima, temos a Serra da Padela, que já atinge os 470 metros”.

“É baixinho, não é?”, perguntamos impelidos pela mera perceção de observador não documentado. “É relativamente baixo, mas é muito alto para a posição em que nós estamos, sobre a margem atlântica”, confirma o nosso guia. E tranquiliza a perceção dos leigos: “Depois progride para o interior e temos a Serra de Arga, que está a 10 quilómetros de distância, mais ou menos, em linha reta da costa e está a 800 metros [de altitude]. Ou seja, é como se estivéssemos a falar de uma escadaria”. Uma escadaria documentada por estudiosos há mais de 100 anos e descrita por um desses nomes, Falcão Machado, em 1935 como o “teclado minhoto”.

Porque é que acontece essa escadaria?, questionamos.

“O globo está dividido em placas – são as placas tectónicas – elas mexem-se e essa escadaria progride para o interior, progride até ao centro da Europa. Ou seja, quando falamos dos Alpes estamos a falar já do topo desta escada e aqui estamos a falar nos degraus mais baixinhos. Gosto de olhar para os patamares como o registo instantâneo de crises sísmicas. Ou seja, do movimento das placas tectónicas acumula-se tensão nas rochas, essa tensão escapa por  fraturas que nessa altura se ativam e se transformam em falhas, e formam-se dando saltos. Aquela plataforma costeira passa a ficar fora de água, então sobe, e fica ali um patamar, formando-se ressaltos na paisagem, que passa a ser uma praia antiga, abandonada pelo mar”.

E nada como o tempo da Terra para colocar em perspetiva tudo o que aqui vemos. O que aqui vemos, de frente para o estuário do Lima, aconteceu desde há cerca de 50 milhões de anos.A história dos Humanos como nós tem cerca de 10 mil anos. “É um piscar de olhos, nós não estamos aqui há tempo nenhum. Os degraus mais pequeninos destas subidas e descidas do nível do mar que acontecem mais ou menos de 100 em 100 mil anos, são impostos por grandes ciclos, são questões orbitais – a Terra mexe-se como um pião”, remata Ricardo Carvalhido.

Em plena floresta com os pés da areia como se fosse praia e uma freguesia que ficou soterrada há “apenas” 150 anos

Partimos para as Dunas Trepadoras do Faro de Anha, no sopé do Monte Galeão. São materiais recentes, têm idades cronológicas de 1590 a 1870, foram geradas na crise climática da pequena idade do gelo. “A pequena idade do gelo teve vários mínimos e um deles está aqui registado, é o Mínimo de Maunder que durou cerca de 70 anos em que praticamente o sol que tem aumentos de intensidade calorífica [produção de calor] de 11 em 11 anos falhou cerca de 7 ciclos e a temperatura média do ar baixou com valores importantes”.

“Tivemos questões que estão bem plasmadas nas memórias paroquiais de 1758, depois do terramoto de 1755, em que, por exemplo, a Freguesia de São João de Ester [atual freguesia de Chafé ] desapareceu por baixo das areias que foram sopradas e a freguesia de Vinha passou nessa altura a chamar-se Areosa. Temos muitos topónimos relacionados com a areia, tem tudo a ver com a mesma coisa”.

Aconteceu tudo nesse período?, perguntamos meio incrédulos.

“Aconteceu tudo nesse período, é dessa altura que vemos quadros da família real inglesa em coches a passear sobre o Rio Tamisa. E estamos a falar de um ciclo pequenino, ciclos pequeninos de grande recorrência, como são os das manchas solares . Temos em frente a nós o monumento natural das Dunas Trepadoras do Faro de Anha, precisamente por causa disso, as dunas são as climbing dunes, foram trepando estas vertentes que temos por aqui, areias que foram sopradas a partir das praias”.

Há qualquer coisa de ficção científica no lugar onde nos encontramos. Cabeça no ar e vemos o verde de árvores frondosas à nossa volta. Pés na terra e podíamos estar na praia, a areia fina por cima da terra faz-nos acreditar nisso. Como é que tudo aconteceu?

“As manchas solares foram identificadas por Galileu Galilei, os primeiros desenhos de manchas solares  são dele. Foi também ele quem desenvolveu instrumentos óticos para fazer a observação e reparou que o sol tinha umas zonas de maior atividade, umas zonas mais escuras. Depois mais tarde percebeu-se que são explosões à superfície do sol, que ocorrem com alguma regularidade, têm uma periodicidade de mais ou menos de 11 em 11 anos, e que formam ciclos solares. Nessa altura, entre o século XVI e o XIX, o que nós tivemos foi uma diminuição paulatina da atividade solar, não se sabe muito bem porquê, mas aconteceu e durante um grande período”.

A Terra ficou por isso mais fria e, na região onde nos encontramos, muitos campos ficaram incultos. Houve uma crise demográfica, alguma crise social porque a comida não abundava. “O pároco de Darque dizia que não conhecia os limites à freguesia, porque estava invadida por areia por todo o lado. Deixou praticamente de chover, havia pouca água disponível, com vento e temperaturas baixas. A pequena idade do gelo, que é um período lato, estamos a falar de séculos, foi-se instalando e as pessoas tiveram de se readaptar, mas quando temos a nossa casa a começar a ser invadida por areia por todo o lado, temos de ir embora, temos de procurar outro sítio para viver”.

Era uma vez há 541 milhões de anos quando Viana do Castelo estava na latitude de Buenos Aires

“Estamos na Praia Norte, em Viana do Castelo, e este é o melhor local para compreendermos de que forma com o fecho do Rheic se forma a Pangeia – tínhamos todas as massas terrestres unidas num único continente – este território evoluiu até à formação do continente único – a Pangeia – há 370 milhões de anos. Há pouco estávamos a falar de geoformas muito recentes, ou seja, estávamos a falar de coisas que aconteceram há menos de 30/40 milhões de anos, mas agora damos um salto muito maior para o passado. Há cerca de 541 milhões de anos, estávamos no início do Paleozoico – “paleo” vem de antigo e “zoion” zoo vem de animal – é a era onde surgem os primeiros animais. Marinhos claro. Não tínhamos ainda a vida terrestre, ainda não tínhamos sequer a camada do ozono, porque para isso também tínhamos de ter o oxigénio, ou seja, qualquer ser vivo que pudesse tentar aventurar-se cá para fora tinha os minutos contados. Isto para dizer que, fazendo essa contextualização, este território que estamos a pisar, estava na latitude do que é hoje Buenos Aires. Começava a fraturação de um velho continente que já não tem existência atual e iniciava-se a oceanização, a formação de um oceano, que é o oceano primitivo, que se chama Rheic, como depois foi batizado”.

É altura para Ricardo falar de Charles Lyell , um dos pais da geologia,  que referia que o presente é a chave do passado. E, na Terra como com o Homem, a história repete-se. “Hoje podemos ver os grandes lagos do oriente africano onde está precisamente a acontecer o mesmo tipo de processo que aconteceu com estas rochas, que foi a formação de um rift intracontinental, ou seja, um rasgão que se formou nesse continente primitivo, a abertura, a água que estava envolta começa  a encher esse interstício que se abriu. Com a expansão deste oceano, esse local onde antigamente as águas eram pouco profundas, passam a ser águas mais profundas, porque passamos a estar mais longe da costa.”

“Se formos agora juntar isto ao resto do puzzle geológico, vemos que em várias partes do planeta temos estas rochas que testemunham a oceanização, a formação do Rheic, e chegou a determinada altura em que esse processo de oceanização parou, se inverteu e o oceano começou a fechar-se até há 380 milhões de anos”.

De volta à ficção científica que é, afinal, a nossa história natural. Que continentes é que tínhamos neste processo de fecho? “Tínhamos o Avalónia, mais a norte, e tínhamos o Gondwana, mais a sul, era um grande continente antigo que continha o que é hoje a América do Sul, África e o que é hoje a Oceânia e uma parte do sul da Europa e os terrenos que hoje são a América do Norte”.

O que é que aconteceu? “Estes dois grandes continentes começaram em rota de colisão e não encostaram com as margens perfeitamente paralelas, houve um encosto enviesado, o que fez com que essas rochas aquecessem muito, ficassem deformadas, e deixam ficar os testemunhos”.

Estamos a falar de algo que aconteceu entre 541 milhões de anos até 380 milhões de anos e depois o processo de fecho completo terá demorado cerca de 100 milhões de anos. Como é que sabemos quando é que isso aconteceu? “Os fósseis dão-nos umas boas pistas. Estes granitos que aqui estão, que vemos à nossa volta como montanhas são câmaras magmáticas que ficaram petrificadas em profundidade, estamos a ver como se fossem ovos de magma que não conseguiram sair para o exterior”.

Testemunho dessa história é, por exemplo, o Monte de Santa Luzia, onde começámos o nosso roteiro, e que resultou de um processo que tem 300 milhões de anos. “É o que hoje está revelado à superfície, mas que já esteve entre 5 a 7 quilómetros de profundidade”. De forma muito simplificada, como sublinha o nosso guia-geólogo, os montes e serras que nos rodeiam foram sedimentos acumulados no fundo do oceano primitivo durante milhões de anos, e que decorrente do fecho desse oceano, foram esmagados e derretidos, transformando-se em magma.

“De há 300 milhões de anos em diante o que temos essencialmente é um arrasamento. Ou seja, temos o relevo dessa altura, do Paleozoico, relevo antigo, que, entretanto, é desgastado, desfeito, até termos uma planura, um bocadinho da mesma forma como vemos hoje em África aquelas zonas cratonizadas , ou seja, tudo muito liso. Até que a Pangeia começa a fraturar-se, começa a abrir de grosso modo Norte-Sul, começa a oceanização do nosso Atlântico”.

O crime das Pedras Ruivas ou uma história de amor e desamor num cenário pintado há 71 mil anos

Vamos agora para um passado não tão antigo, que é o passado de 1904, e conhecer uma história que toda a Viana conhece.

“Em 1904 ocorreu aqui um crime que ficou célebre como o crime das Pedras Ruivas. Estas pedras que estão aqui são de facto ruivas e sabemos há mais ou menos quanto tempo é que elas são ruivas,: há cerca de 71 mil anos. Nessa altura estiveram cobertas por um grande campo durar”.

Não foram sempre assim, debaixo do alaranjado que brilha nos dias de sol ainda são brancas. Aqui aconteceu um crime muito badalado na cidade e que envolveu dois protagonistas, o João Douro e a Maria das Dores, que depois ficou conhecida como a Doura. Era bordadeira.

“Ele era da Meadela, um padeiro aqui na cidade, com forno na Rua do Espírito Santo, bastante conhecido. Ela era de Santa Marta de Portuzelo, terra de bordados ainda hoje. O Douro era bastante mais velho que ela e vinham namorar aqui atrás das rochas. Chegar até aqui não era como hoje, que se chega facilmente. A história dava um filme e acabou de uma forma trágica. José Douro aborreceu-se com a situação em que estavam, como amantes que eram, e mudou o testamento em que tinha a Maria das Dores como uma das beneficiárias. Ela apercebeu-se da situação e no dia 2 de outubro viram passar o Douro com o seu guarda-chuva e viram depois regressar a Maria das Dores, umas horas depois, com o guarda-chuva dele na mão. Perguntaram-lhe onde é que ele estava, e ela que disse que não sabia. Nesse dia a maré estava a subir e ela pensou, aquela hora, que o corpo fosse levado, isso não aconteceu. E encontraram o Douro com o crânio esmagado com um destes quartzitos e morto. A Maria das Dores foi julgada, enviada com um suposto cúmplice para o degredo de África, de onde só regressou ela, o suposto cúmplice acabou por morrer lá. Ela fica presa na cadeia antiga, com o postigo virado à Rua da Bandeira que foi mais tarde o edifício dos Paços do Concelho, e havia muita gente que ia dizer-lhe a seguinte lenga-lenga “olha o diabo da Doura, o que é que lhe haveria de dar, foi matar o pobre do coxo, nas pedras ruivas do mar”.

E é assim que a história da Doura nos leva ao quartzito. “Se eu conseguisse rodar um botão e voltar atrás no tempo, ia começar a ver inicialmente bocadinhos um pouco maiores deste material, se voltasse mais atrás começava a ver que eram grãos de quartzo cosidos, ainda se viam lá os estilólitos, que era como se fosse a costura, e se voltasse mais atrás ainda tinha areia. Isto que é um grão de areia gigante que se fundiu, foram milhões de grãos que se fundiram num grão só”.


Por onde passa o roteiro do Geoparque Litoral de Viana do Castelo

São 52 painéis interpretativos nos treze monumentos naturais que perfazem cerca de 4000 hectares de áreas classificadas para a geodiversidade. A lançar até final do ano, a aplicação móvel do Geoparque Litoral Viana permitirá ler a paisagem através de códigos QR que tornam possível com um smartphone ter uma explicação do que se está a observar.

No geoparquelitoralviana.pt vai ser possível planear uma viagem pelos monumentos naturais, que envolve zonas especiais de conservação e também a gastronomia – afinal, estamos no Minho.

“O Geoparque é uma estratégia de desenvolvimento sustentado assente nas nossas raízes, bio e geodiversidade, património cultural, etnografia, usos, costumes, gastronomia, vinhos. É aquilo que nos é identitário e que queremos usar como um motor económico, por via do turismo e também como ferramenta e material através do qual os nossos professores podem desenvolver as suas práticas educativas”, explica do presidente do Conselho Científico do Geoparque, Ricardo Carvalhido.

Está também prevista uma aplicação do Geoparque Litoral Viana que permitirá usufruir de uma tecnologia de realidade aumentada,  uma mistura entre aquilo que é a realidade e aquilo que é informação sob a forma de metadados que são lá colocados.

O Geoparque, ponto por ponto:

  1. Alcantilado de Montedor
  2. Pedras Ruivas
  3. Canto Marinho
  4. Ribeira de Anha
  5. Ínsuas do Lima
  6. Pavimentos Graníticos da Gatenha
  7. Cascatas do Poço Negro
  8. Cascatas da Ferida Má
  9. Penedo Furado do Monte da Meadela
  10. Planalto Granítico das Chãs de Sta. Luzia
  11.  Turfeiras das Chãs de Arga
  12.  Cristas Quartzíticas do Campo Mineiro de Folgadoiro-Verdes
  13.  Dunas Trepadoras do Faro de Anha

Fonte: SAPO 24

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Vereador do Ambiente recebeu Menção Honrosa do Prémio Nacional do Ambiente

A Confederação Portuguesa de Associações de Defesa do Ambiente (CPADA) atribuiu hoje a Ricardo Jorge Carvalhido, Vereador da Câmara Municipal de Viana do Castelo, o Prémio Nacional de Ambiente, menção honrosa, pelos serviços prestados à Conservação da Natureza, destacando o programa Geoparque Litoral de Viana do Castelo.

A Confederação Portuguesa de Associações de Defesa do Ambiente, criada em 1991, é a maior organização ambientalista portuguesa, integrando Associações de Defesa do Ambiente e Organizações Não Governamentais de Ambiente, de âmbito nacional, regional e local, de grande diversidade temática (conservação da natureza, ordenamento do território, património construído, ambiente urbano, transportes alternativos, bem-estar animal, agricultura biológica, educação ambiental e atividades específicas), espalhadas no Continente e Regiões Autónomas, que representam, no seu todo, dezenas de milhar de associados.

A Confederação tem como objetivos gerais a defesa do ambiente, nas suas múltiplas vertentes, em particular através do fenómeno do associativismo. É membro do European Environmental Bureau, federação de organizações ambientalistas da Europa e representa as Organizações Não Governamentais de Ambiente (ONGA) no Conselho Económico e Social. Como representante das ONGA no Conselho Económico Social a Confederação tem um papel de parceiro social e interlocutor privilegiado em questões associativas e da política de ambiente.

Ricardo Jorge Ponte de Matos Carvalhido é licenciado em Biologia e Geologia (Universidade do Minho, 2004) e doutorado em Ciências (Especialidade de Geologia) pela Universidade do Minho (2012). Desde 2017 é Vereador da Câmara Municipal de Viana do Castelo, com os pelouros do Ambiente e da Biodiversidade, Ciência, Inovação, Conhecimento e Projetos Educativos.

 

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Autarquia apresenta procedimentos a ter quando encontra um animal selvagem

A autarquia vianense apresentou, ontem, o que fazer quando encontra um animal selvagem. O vereador Ricardo Carvalhido deu essa informação durante a reunião de Câmara.

O vereador, com o pelouro do Ambiente, manifestava que “há alguma dificuldade dos munícipes saberem quais os procedimentos a tomar quando se deparam com um animal selvagem, quer esteja vivo ou morto”. Ricardo Carvalhido considerava que esta uniformização de procedimentos tem duas vertentes. Por um lado “a questão da saúde pública” e por outro “o sofrimento animal”.

O Município dispõe de uma linha, que funciona 24h, para as situações em que o animal já está morto. A SOS Biodiversidade de Viana do Castelo está acessível pelo 258 819 391.

Entre 14 de agosto e 09 de setembro, o Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental recebeu 19 ocorrências relacionadas com gaivotas, quer mortas ou feridas. No documento da proposta lê-se que “não existe uma articulação sobre este assunto entre as diferentes entidades, e não existe uma clarificação sobre a competência que é devida nas diferentes situações”.

Fonte: Aurora do Lima

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